Estou ficando cansada de postar “assuntos do coração”. Mas não tem jeito. Eu sou assim, como dizia Clarice Lispector, um coração batendo no mundo. Tive uma noite ruim. Cenas, dúvidas, casos e acasos me acordavam insistindo para um café, para um acerto de contas. Tantas perguntas povoavam minha mente inquieta.
Quem teve a idéia tosca de determinar o que é certo pra vida das pessoas como se todo o mundo tivesse saído de uma fôrma de bolo e fossemos iguais? “Tias velhas” me perguntam toda semana porque eu não tenho namorado. Será que não passa por aquelas cabecinhas que eu simplesmente não quero o primeiro mala que aparecer só pra eu poder falar que tenho, enfim, o namorado que elas me cobram.
Padrões irreais, alienantes e ultrapassados. Desculpe-me o palavreado, mas que porra é essa de “sucesso”?? Sucesso é ter um emprego milionário, mesmo que você abra mão da sua vida pra ganhar dinheiro. Sucesso é ter um casamento por 30 anos, mesmo que você durma no sofá há 23. Sucesso é ter se casado antes dos 30 mesmo que você tenha se casado com um pangaré qualquer. Sucesso é uma palavra criada para definir algo que eu nem sei se queria ter tido ou sido.Felicidade e sucesso são caminhos que nem sempre se cruzam.Largamos nossas carreiras de bailarinas, psicólogos, músicos porque isso não dá dinheiro. Largamos nossos sonhos, nossas vocações, aquilo que realmente sabemos (e queremos) fazer, para cursar uma faculdade de direito, de engenharia, de medicina porque é isso que aprendemos que dá dinheiro, sustento na vida e o glamour do tão sonhado do status.
Quem escreveu as regras do sucesso? Eu vou ser infeliz se cursar psicologia e não direito? Se eu for morar na praia. Se eu virar hippie? Se eu não ganhar dinheiro, mas fizer aquilo que eu gosto. Eu vou ser uma pessoa pior pra quem? Pra mim mesma ou pro resto do mundo?
Podem me chamar de boba, louca ou até mesmo infantil, mas eu possuo apenas esta vida e nela vou fazer o que eu quiser fazer. O que eu nasci pra fazer. E isso não é papo de adolescente rebelde, definitivamente, já passei dessa fase. Não vou cursar direito porque trabalho num gabinete de tribunal, porque as melhores carreiras são para os bacharéis em direito. Isso é excelente! Excelente pra vocês. Que eu fiquei a vida inteira morando no mesmo bairro suburbano, que eu não vá às melhores festas nem faça parte da high society. E quem quiser pensar que eu tenho a mente pequena, que pense! Porque eu quero mesmo é chegar ao fim da estrada e constatar se a vale a pena seguir o coração. Se tudo der certo, quando eu estiver voltando, eu aviso aos que ainda estão indo que vale a pena sim. Mas se, inevitavelmente, as coisas não saírem como o esperado, nada terá sido em vão. Quem vai arcar com o estrago será eu mesma. Cansei de provar que eu estou certa. A partir de agora vocês é que provem que eu estou errada. Ou melhor, continuem seguindo o mesmo padrão, a mesma forma, a mesma ditadura:
Você tem que ter 1,65m, pesar 55 quilos, ser loira, linda e difícil. Tomar a iniciativa? Jamais. Ligar antes que ele te ligue? Tá louca?!Namore caras mais velhos, bem sucedidos e independentes. Case-se antes dos 30. Seja linda. Independente. Ganhe bem - mesmo que todo seu dinheiro seja torrado em bolsas Louis Vuitton e sapatos Prada. Tenha um cachorro de bolsa. Sorria quando quiser chorar. Tome remédios pra dormir. Tenha o Prozac, Rivotril e Fluoxetina como seus melhores amigos. Durma pouco. Trabalhe 14 horas por dia, é super moderno dizer pros amigos que trabalha “horrores”. Top mesmo é ser workaholic (viciado em trabalho, mas é mais chique falar em inglês, óbvio). Stress está na moda. E, se sobreviver a tudo isso, me conte depois. Vou querer estar aqui pra saber.
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